Itu: História, Berço da República e a Cidade dos Exageros

Introdução

No coração do interior paulista, a cerca de 100 km da capital, encontra-se uma das cidades mais antigas e historicamente relevantes do estado de São Paulo: Itu. Com mais de quatro séculos de existência, sua trajetória se confunde com a própria formação do Brasil, tendo sido palco de eventos que mudaram os rumos da política nacional. Conhecida nacionalmente como o “Berço da República” e mundialmente famosa pelo peculiar apelido de “Cidade dos Exageros”, a história de Itu é um fascinante mosaico que vai desde as expedições dos bandeirantes até a industrialização e o turismo moderno.

As Origens: Fundação e os Primeiros Passos (Século XVII)

A Capela que deu origem à cidade

O marco oficial da fundação de Itu remonta ao início do século XVII. Em 2 de fevereiro de 1610, o bandeirante Domingos Fernandes, acompanhado de seu genro Cristóvão Diniz, ergueu uma capela em louvor a Nossa Senhora da Candelária. A escolha do dia não foi por acaso: a data coincide com o dia da santa padroeira, que até hoje é celebrada como o aniversário da cidade.

Estatua de Domingos Fernandes en Itu-SP

Domingos Fernandes era descendente, pelo lado materno, de João Ramalho e da índia Tibiriça, figuras lendárias do início da colonização paulista. Ele e sua família receberam, em 1604, a posse das terras dos campos do Pirapitingui por meio de uma sesmaria. Foi nesse território que a capela foi construída, no local onde hoje se encontra a Igreja do Bom Jesus, na Praça Padre Anchieta (antigo Largo do Bom Jesus).

A povoação e os primeiros anos

Em torno da capela, formou-se um pequeno povoado que, em 1653, foi elevado à condição de Freguesia de Santana do Parnaíba. Poucos anos depois, em 1657, alcançou o status de Vila, com direito a ter sua própria Câmara Municipal.

No entanto, o crescimento foi lento. Durante quase um século (de 1657 a 1750), a Vila de Itu não passou de um pequeno núcleo com menos de 100 casas, concentradas no pátio da antiga Matriz e em uma única rua. Apesar da modéstia do povoado, sua localização estratégica já começava a desenhar seu destino: Itu se firmou como ponto de passagem e parada para bandeirantes e monçoeiros que partiam em direção ao sertão em busca de indígenas para escravizar, metais e pedras preciosas.

A Ascensão Econômica: Açúcar, Algodão e o Ciclo do Ouro (Século XVIII)

A virada do século XVIII trouxe transformações significativas. A Vila começou a se consolidar como um importante entreposto comercial na rota entre o sul do país e as regiões mineradoras de Mato Grosso e Goiás.

O crescimento das lavouras

A partir de 1777, a economia de Itu ganhou novo fôlego com a exportação de açúcar para a Europa. O número de engenhos de cana-de-açúcar e de escravos vindos da África se multiplicou. Simultaneamente, o cultivo do algodão e a produção caseira de tecidos também se expandiram, impulsionados pelos comerciantes locais.

A expansão urbana

O crescimento econômico refletiu-se na paisagem urbana. Entre 1785 e 1792, novas ruas foram abertas, e em 1819 foi inaugurada a Igreja do Patrocínio. Em 1811, a região foi elevada à condição de Comarca de Itu, um marco importante de autonomia administrativa.

Museu Republicano de Itu – Foto: Arquivo/USP Imagens

O Século XIX: De Vila Imperial a “Cidade Mais Rica da Província”

A elevação à categoria de cidade

Em 5 de fevereiro de 1842, pela Lei Provincial nº 5, a Vila de Itu foi finalmente elevada à categoria de cidade. Na ocasião, o município já contava com cerca de 800 casas. No mesmo ano, Itu participou ativamente da revolução liberal que eclodiu em várias partes do país, organizando uma força de 300 homens ao lado das tropas do Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar.

O título de “Fidelíssima”

Em 1822, Dom Pedro I concedeu a Itu o título de “Fidelíssima” em reconhecimento ao apoio da vila à independência do Brasil. Esse gesto de lealdade à Coroa consolidou a posição política da cidade no cenário imperial.

O apogeu econômico

A partir de 1850, Itu viveu seu período de maior esplendor econômico. Foi considerada a cidade mais rica da Província de São Paulo, com papel de destaque na vida política e econômica regional. Essa riqueza veio, em grande parte, da cana-de-açúcar — Itu se tornou a maior produtora do produto durante todo o período Imperial.

Posteriormente, o ciclo do café assumiu o protagonismo, sendo a atividade-base do município até 1935. A cafeicultura atraiu levas de imigrantes, especialmente italianos, que contribuíram para a diversificação cultural e econômica da cidade.

O Berço da República: A Convenção de 1873

A Convenção de Itu, 1873

Itu entrou para a história do Brasil ao sediar um dos eventos mais importantes do período republicano. Em 1873, a cidade foi palco da Primeira Convenção Republicana do país, também conhecida como Convenção de Itu.

Foi nesse encontro que se consolidou o movimento republicano que culminaria, em 1889, com a Proclamação da República. Por esse feito histórico, Itu recebeu o título de “Berço da República” — uma alcunha que carrega com orgulho até os dias de hoje.

O Museu Republicano de Itu, instalado no antigo solar dos Almeida Prado, preserva a memória desse evento fundamental, sendo um dos principais pontos turísticos e culturais da cidade.

Industrialização e Modernidade (Século XX)

A primeira fábrica movida a vapor

Em 1869, ainda no século XIX, Itu deu um passo decisivo rumo à modernidade com a instalação da primeira fábrica de tecidos de algodão movida a vapor da Província de São Paulo. O prédio da antiga Fábrica São Luiz, inaugurada naquele ano, é hoje um patrimônio histórico e centro cultural que atrai visitantes.

O crescimento industrial

Foi somente a partir da década de 1950 que a industrialização de Itu ganhou maior impulso, com a instalação de várias fábricas na cidade, acompanhada por uma grande migração rural em busca de trabalho.

Em 1968, a conclusão da rodovia Castelo Branco foi um divisor de águas. A nova via facilitou o acesso e o escoamento da produção, atraindo novas empresas que se instalaram principalmente às margens das estradas de acesso.

A “Cidade dos Exageros”: Um Apelido que Virou Marca

A origem do apelido

Se a história de Itu é marcada por feitos grandiosos, sua fama contemporânea vem de algo inusitado: o humor. Na década de 1970, o comediante ituano Francisco Flaviano de Almeida, mais conhecido como Simplício, popularizou em um programa de televisão a ideia de que “em Itu tudo é maior”.

A brincadeira pegou. Itu abraçou o título de “Cidade dos Exageros” e passou a criar atrações turísticas que brincam com a ideia: um orelhão gigante, um semáforo gigante, um lápis gigante e outros monumentos que encantam visitantes de todas as idades.

Turismo e patrimônio

Hoje, Itu é uma Estância Turística, combinando seu rico patrimônio histórico com atrações modernas e peculiares. O Parque Geológico do Varvito, com formações rochosas raras que remontam a milhares de anos, e o Parque Maeda, conhecido por suas atividades de lazer e pela valorização da cultura japonesa, são apenas alguns exemplos do que a cidade oferece.

O patrimônio arquitetônico colonial, as igrejas históricas — como a Matriz de Nossa Senhora da Candelária — e os museus completam o roteiro de uma cidade que soube preservar sua memória sem deixar de se reinventar.

Conclusão

A história de Itu é uma jornada de mais de 400 anos que reflete, em escala local, a própria história do Brasil. Das expedições bandeirantes à riqueza do açúcar e do café, do protagonismo na Convenção Republicana à fama humorística dos “exageros”, a cidade construiu uma identidade única e multifacetada.

Com uma população estimada em cerca de 174 mil habitantes e um perfil econômico que une turismo, comércio, serviços e indústria, Itu segue sendo um dos destinos mais fascinantes do interior paulista. Sua capacidade de conciliar a tradição com a modernidade, a seriedade histórica com o bom humor, faz dela um lugar especial — não apenas para se visitar, mas para se conhecer a fundo.

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